A Parte que Falta: por que preencher o vazio com algo externo não funciona Pular para o conteúdo

A Parte que Falta: por que preencher o vazio com algo externo não funciona

A partir do livro de Shel Silverstein, o Dr. Endrigo Neves fala sobre a crença de que existe uma peça faltando em você e que, ao encontrá-la, você finalmente vai se sentir suficiente.

Na história, um círculo incompleto sai pelo mundo buscando a peça que falta. Enquanto rola devagar, ele consegue parar para cheirar as flores, conversar com minhocas, deixar borboletas pousarem. A incompletude permitia que ele vivesse. Quando finalmente encaixa a peça, ele rola tão rápido que não sente mais nada, e nem cantar consegue.

No consultório, a pergunta é sempre a mesma: qual é a parte que você anda buscando? Um relacionamento, um corpo diferente, um emprego melhor, a aprovação de alguém? A crença por trás não muda.

Às vezes não é filosofia, é depressão interferindo na capacidade de sentir prazer, ou ansiedade fazendo você acreditar que é insuficiente. E isso tem tratamento.

Transcrição do vídeo

Você já sentiu que não importa o quanto se esforce, sempre tem um vazio aí dentro que você tenta preencher a todo custo? Anos atrás, assim como muita gente, eu conheci essa história através daquele vídeo clássico da Jojo, e a forma como esse livro mexeu com a minha cabeça naquela época é exatamente o que eu quero mostrar hoje sob a ótica da saúde mental. Um círculo incompleto sai pelo mundo buscando a peça que falta nele, enquanto rola devagar, consegue parar para cheirar as flores, conversar com minhocas, deixar as borboletas pousarem nele, e essa incompletude permitia que ele vivesse. Depois de muitas tentativas, encontrando algumas outras partes pelo caminho, um dia ele acha a tão sonhada peça.

Encaixa completamente e ele se torna um círculo perfeito, e começa a rolar tão rápido que não consegue mais parar, não sente mais o aroma de uma flor, a borboleta não pousa mais, e ele nem consegue cantar, porque a boca estava cheia, fechada, com a peça encaixada. Então ele para, pensa, e coloca a peça de volta no chão, e volta a rolar devagar, incompleto, cantando. Quando eu conto isso no consultório, eu pergunto qual é a parte que você anda buscando? Um relacionamento? Um corpo diferente? Um emprego melhor? A aprovação de alguém? A resposta muda, a crença é sempre a mesma.

"Quando eu achar aquela peça, eu vou finalmente ser suficiente." A questão é que a psiquiatria nos ensina o contrário todo dia. Quando a pessoa acha a parte que falta, começa a rolar tão rápido que perde a capacidade de sentir, e muitas vezes porque perdeu a própria essência.

E quando a gente força um formato que não é nosso, o tão sonhado emprego vira motivo de estresse, o relacionamento vira ansiedade de perder, o corpo conquistado vira uma obsessão em manter. E isso tem nome, dependência afetiva, anedonia, transtorno de ansiedade. Mas antes de qualquer diagnóstico, existe uma crença, a de que você precisa ser consertado por algo externo antes de merecer estar aqui.

E enquanto essa crença operar, não existe peça que encaixe. O círculo do livro não ficou perfeito no final, ficou capaz de sentir novamente. E é isso que eu busco com cada paciente, não te transformar em outra pessoa, mas te ajudar a entender de onde vem esse vazio, se ele tem nome, se tem história, se tem tratamento.

Porque às vezes não é filosofia, é depressão interferindo na sua capacidade de sentir prazer, é ansiedade te fazendo acreditar que você é insuficiente. E isso tem tratamento. Se você se viu nessa história, talvez valha a pena conversar.

Não porque você está quebrado, mas porque você merece entender o que está sentindo.

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